Deus – I

20abr12
É comum vermos pessoas lendo o Espiritismo com olhos católicos. Ali encontram o velho Deus disciplina­dor, juiz, distribuidor de castigos e recompensas. Um Deus que pontua nossas vidas de obstáculos, para provar nossas virtudes.

Acreditando neste Deus, muitos espíritas não mudaram realmente suas formas de pensar, só adotaram novos nomes para suas mesmas idéias.

Ocorre que o modo como entendemos Deus é o modo como entendemos a vida. Esta visão de Deus transform­ou a reencarnação em pena, numa imagem perversa e vingativa da lei natural, quando a encarnação apenas se constitui em campo de experiências evolutivas. O céu virou “Nosso Lar”, e assim por diante.

Há um sentimento instintivo nos seres humanos, a respeito de uma força superior, um poder sobre-hu­mano que costumamos chamar de Deus. As formas de pensar e compreender que Deus é este, o que ele faz e como governa a vida dos seres são inúmeras, e deram origem às religiões.

Numa época de conhecimentos científicos nulos ou bastante limitados, muitas idéias fantasiosas adquiri­ram importância, como se fossem verdades e, a partir daí, desenvolveu-se um tipo de relacionamento com Deus baseado no medo, nas trocas de favores, na intermediação por sacerdotes e na realização de rituais. E ape­sar do progresso da Ciência desvendar uma realidade diferente, onde muitas crenças religio­sas não se enqua­dram, a maioria dos seres humanos continua com suas antigas crenças, agindo com a mesma noção da divin­dade dos nossos antepassados: como uma pessoa que devemos agradar para servir aos nossos propósitos, que nos pune de algum modo se efetuamos escolhas ruins, que intervêm em nossos destinos, que diz o que pode­mos ou não fazer.

Uma diferença fundamental do conceito espírita de Deus, com relação a estes outros é que, mesmo limi­tado pela nossa linguagem e possibilidade de compreensão, ele transmite uma visão totalmente inovado­ra.

Vejamos:

Para o Espiritismo, Deus não é pessoa ou Espírito, como nós; não tem forma nem sentimentos humanos. Os Espíritos Superiores que trabalharam na Codificação definiram Deus como inteligência suprema, causa pri­meira de todas as coisas. Esta resposta não explica a natureza íntima de Deus, inacessível para nós, por en­quanto, mas possibilita entendê-lO como poder criador do Universo. Seus atributos são qualidades atribuídas a Ele pelos Espíritos, e nos permitem ter uma idéia mais ou menos exata de como atua no Universo. Ele é eterno (não teve início nem terá fim), imutável (não está sujeito a mudanças), imaterial (difere de tudo que é matéria e não se comporta como um ente material), único, onipotente, justo e bom, infinitamente perfei­to, sendo que todas as suas qualidades estão num grau máximo.

O conhecimento da existência de Deus não ocorre pela fé cega, mas pela análise, observação e constatação do funcionamento harmonioso da Natureza. Nos processos da Natureza, tudo revela uma força inteligente e uma precisão que só poderiam resultar da criação de uma inteligência superior a qualquer outra que possa­mos imaginar. O acaso não poderia produzir estes efeitos.

Deus não precisa ser temido, nem existe para nos julgar, nem se entristece com nosso comportamento. Em suas deduções a respeito de Deus, os seres humanos lhe conferiram emoções e atitudes humanas que negam os seus atributos como qualidades máximas. Por ser superiormente sábio e conhecer profundamente o ser hu­mano, não haveria sentido em nos julgar, ou entristecer-se por fazermos coisas próprias de nosso estágio evo­lutivo. Por ser imutável, não muda sua forma de agir, não nos oferece perigo, por isso não há motivo para se ter medo.

Deus não intervêm diretamente nos acontecimentos, mas age através das leis sábias que regem o Universo. A ação das leis de Deus em toda parte, das interações microscópicas no interior do átomo aos movimentos pla­netários e ao mais fundo dos seres é, em si mesma, prova de que a criação é perfeita desde o início, não exi­gindo providências de Deus para ajustar os rumos dos acontecimentos e para fazer prevalecer Sua vontade. A relação do ser humano com Deus é feita sem intermediários, através da prece (pensamentos e sentimentos). Cada criatura, em qualquer hora ou local em que se encontre, pode elevar-se a Ele. A principal qualidade da prece corresponde ao sentimento que transmite, sem uso de objetos ou palavras especiais.

Prova da existência de Deus
A um pobre beduíno, ignorante, que orava muito a Deus, alguém perguntou como poderia acreditar nele.

– Pelas suas obras, disse. E explicou:

– Não conheces a origem de uma jóia pelo sinete do joalheiro? Não sabes de quem é uma carta, pela letra do en­velope? Não afirmas que um camelo, e não um cão passou pela estrada, olhando simplesmente o rasto dei­xado pelo animal? Assim também eu sei que Deus existe pelas suas obras.

– Como? Explique melhor.

– É muito fácil. As estrelas do céu não são obra dos homens, que lá não poderiam tê-las colocado. Logo, só po­dem ser obra de Deus, e, portanto, Ele existe.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, na primeira pergunta, propõe uma questão aos espíritos sobre a Di­vindade, de forma lógica; não usa a forma Quem é Deus?, que daria um sentido de personificação, ou seja, uma ideia antropomórfica, mas busca a natureza íntima, a essência das coisas, formulando a proposição des­ta forma – Que é Deus? Ao que os espíritos, sabiamente, respondem:

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”.

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; o engenho do mecanismo atesta-lhe a inteligência e o saber. Quando um relógio nos dá o momento preciso, a indicação de que necessitamos, já nos ocorreu di­zer: “Aí está um relógio bem inteligente”?

Outro tanto ocorre com o mecanismo do Universo. Deus não se mostra, mas revela-se pelas suas obras.

A existência de Deus é, pois, uma realidade, comprovada não só pela revelação como pela evidência dos fa­tos. Os povos selvagens nenhuma revelação tiveram; no entanto, crêem, instintivamente, na existência de um poder sobre-humano.

O sentimento instintivo que todos os homens têm da existência de Deus é também uma prova de que ele existe e uma consequência do princípio de que não há efeito sem causa. Esse sentimento não é fruto de uma educação, resultado de ideias adquiridas, pois ele é universal, encontra-se mesmo entre os selvagens, a quem nenhum ensi­no foi ministrado a respeito.

Questionam alguns se a causa primária da formação das coisas não estaria nas propriedades íntimas da maté­ria. Porém, é indispensável sempre uma causa primária, e atribuí-la a essas propriedades seria tomar o efeito pela causa, já que tais propriedades são também um efeito.

Se Deus está em toda parte, porque não o vemos? Vê-lo-emos quando deixarmos a Terra? Tais perguntas for­mulam-se todos os dias.

À primeira é fácil responder: por serem limitadas as percepções dos nossos órgãos vitais, elas os tornam inap­tos à visão de certas coisas, mesmo materiais.

Os nossos órgãos materiais não podem perceber as coisas de essência espiritual. Unicamente com a visão es­piritual é que podemos ver os espíritos e as coisas do mundo imaterial. Somente nosso espírito, portanto, pode ter a percepção de Deus. Dar-se-á que ele O veja logo após a morte?

As comunicações com os espíritos nos dizem que a visão de Deus constitui prerrogativa dos mais purificados espíritos, e que bem poucos, ao deixarem o envoltório terrestre, se encontram no grau de desmaterialização neces­sário a tal efeito.
Uma pessoa que se ache no fundo de um vale, envolvida por densa bruma, não vê o Sol. No entanto, pela luz di­fusa, percebe que há sol. Se começa a subir a montanha, à medida que for subindo o nevoeiro ir-se-á tor­nando mais claro, a luz cada vez mais viva. Contudo, ainda não verá o Sol. Só depois de se achar elevado aci­ma da ca­mada brumosa, e de ter chegado a um ponto onde o ar esteja perfeitamente límpido, ela o contem­pla em todo o seu esplendor.

O mesmo se dá com o espírito. O envoltório perispíritico, conquanto nos seja invisível e impalpável é, em re­lação a ele, verdadeira matéria, ainda grosseira de mais para certas percepções. Ele, porém, se espiritualiza, à medida que o espírito se eleva em moralidade. As imperfeições do espírito são quais camadas nevoentas, que lhe obscurecem a visão.

Nenhum homem, por conseguinte, pode ver Deus com os olhos da carne. Se essa graça fosse concedida a al­guns só seria no estado de êxtase. Tal possibilidade, aliás, exclusivamente pertenceria aos espíritos de elei­ção, encarnados em missão, não em expiação. Mas como os espíritos da mais elevada categoria têm ofuscan­te brilho, pode dar-se que espíritos menos elevados, encarnados ou desencarnados, maravilhados com o es­plendor de que aqueles se mostram cercados, suponham estar vendo o próprio Deus.

Vejamos agora cada um desses atributos de Deus, conforme o ângulo espírita.

Fontes:
Os desafios do tema – Rita Foelker
Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal
O Livro dos Espíritos



2 Responses to “Deus – I”

  1. Acompanho faz um tempão o seu Bacalhau e não sei por que raios nunca tinha vindo aqui. Vc acha possível falar de espiritismo e de culinária ao mesmo tempo? Eu acho. Volto. Beijo!

    • 2 cdelima

      Pra você ver a possibiliade, os dois coexistem faz tempo. Duas das mais fortes dedicações de minha vida. E assim, vamos caminhando entre a vida material e espiritual. Volte sempre. Cadastre-se para receber nossos boletins.


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