As mulheres de Jesus

01nov11
A visão feminina do Novo Testamento sempre existiu, mas o estudo sistematizado com vistas às revisões do papel da mulher na vida e no legado de Jesus é mais recente. O que se convencionou chamar de teologia feminista nasceu com os movimentos pelos direitos das mulheres nos anos 60, quase dois mil anos depois da reunião dos textos que compõem a segunda parte da Bíblia. “Prevaleciam, e ainda prevalecem, em muitos lugares interpretações dos textos que justificavam a subjugação da mulher”, conta Yury Puello Orozco, teóloga feminista do departamento de Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Às perguntas que buscavam a justificação da existência do mal, por exemplo, convencionou-se afirmar que a culpa era da mulher, que, na figura de Eva, no Antigo Testamento, cedeu às tentações do diabo e comeu o fruto da árvore proibida. “Se as mulheres eram fracas e sugestionáveis como alguns dizem, por que foram elas as testemunhas de momentos-chave do cristianismo, como a morte e a ressurreição de Cristo?”, questiona Yury. “Os apóstolos, na hora do aperto, foram incrédulos e fugiram, enquanto as mulheres permaneceram ao pé da cruz”, lembra.

Uma das que continuaram lá, firme e forte, foi Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, reconhecida como a figura feminina mais importante na vida de Cristo. Não só por estar ali, em um dos momentos de maior aflição do filho que era dela e de Deus, mas por toda sua história ao lado do Messias. Mesmo sem compreender tudo que seu filho dizia e fazia, ela acreditou na palavra de Deus e seguiu dando espaço para que Jesus passasse sua mensagem.

São muitos os momentos na vida de Nossa Senhora que mostram extrema confiança no projeto divino, mas alguns merecem destaque. Um deles é a anunciação, quando o anjo Gabriel conta a Maria, virgem e noiva de José, que ela conceberia um bebê mantendo-se casta e que esta criança, que deveria se chamar Jesus, reinaria para sempre como Filho do Altíssimo. Diante da grandeza do que foi dito, Maria, embora assustada, aceitou o anúncio como a vontade de Deus e se colocou à disposição do projeto. É difícil imaginar o peso que essa mulher aceitou carregar. Jovem, pobre e prometida em casamento, ela estava grávida em um mundo onde a mulher adúltera – e essa suspeita recaiu sobre ela – era condenada publicamente à morte por apedrejamento.

Mas era na margem que Jesus caminhava e foi lá que ele encontrou outra mulher que seria fundamental em sua vida: Maria de Magdala, também conhecida como Maria Madalena. Magdala é o nome de pequena cidade de onde viera, usado como cognome para distingui-la das outras Marias que aparecem na narrativa evangélica. Sofrera a influência Espíritos impuros, afastados por Jesus, ela passou a segui-lo e se tornou seu braço-direito no ministério. Jesus deu inúmeras demonstrações de confiança a Maria Madalena – boa parte registrada nos evangelhos canônicos e outra contada nos chamados apócrifos, escritos que datam quase em sua totalidade do século III, mas que não foram incluídos na “Bíblia”. Ela é chamada de apóstola dos apóstolos, por exemplo, e chega a despertar ciúmes nos homens que seguem Cristo. A mais poderosa das demonstrações de confiança do Messias em Madalena, e, por extensão, nas mulheres, foi o fato de tê-la escolhido para ser a primeira testemunha de sua ressurreição, o momento definidor da fé católica. Foi ela quem viu e anunciou aos apóstolos que Jesus havia aparecido a ela ressuscitado.

Jesus era amigo de três irmãos: Lázaro, Marta e Maria. Eles viviam em Betânia, um povoado próximo de Jerusalém, e Jesus costumava visitá-los. Em uma dessas visitas, Maria senta-se ao lado de Jesus e põe-se a escutá-Lo, enquanto Marta continua ocupada, atarefada com o trabalho doméstico. A certa altura, ela reclama com Jesus que não aparentava se importar com a faina de Marta em contraponto ao conforto de Maria. Mais que reclamar, Marta pede que Jesus mande Maria ajudá-la com o serviço. E Jesus lhe responde com clareza: “Acalme-se, você está agitada com tanta coisa, mas uma só é necessária. Maria escolheu uma boa parte e não vou tirar isso dela.”

Marta e Maria representam a diversidade de dons que temos – uns próprios para a ação; outros, para a escuta, para a interiorização, para a oração. Contudo, ambas acolhem Jesus em sua casa. E, para a construção do Reino, ambos os dons são necessários. Não basta ficar sentado, apenas ouvindo – há que se sair para a ação. Não basta agir somente – há que se escutar para não cair no ativismo vazio. São, pois, dons complementares, essenciais à transformação de uma realidade.

Mas o legado feminino deixado pelas mulheres contemporâneas de Jesus tem valor inestimável. Serviu de referência para o corpo de fiéis que começou a se formar nos primórdios do cristianismo e nos últimos dois mil anos teve papel fundamental na criação da identidade católica. O que começou com figuras como Lídia de Tiatira e Tecla de Icônio foi terminar em Madre Teresa de Calcutá, passando por Santa Teresa D’Ávila e Santa Juana Inés de la Cruz. Embora as mulheres ainda não gozem do prestígio e reconhecimento que tinham nos tempos de Cristo, a força das histórias daquelas que viveram a fé de forma plena, por meio de atos e palavras, deixou sua marca e continua estimulando mudanças estruturais.

Lídia era uma comerciante. Ela era natural da cidade de Tiatira. Tiatira era um importante centro manufatureiro: tintura, confecções, cerâmica e trabalhos em bronze faziam parte da sua pauta de exportações. Lídia poderia ser uma espécie de representante comercial, em Filipos, dos produtores de Tiatira.

Outro aspecto importante da vida de Lídia é sua sensibilidade à Palavra de Deus. Ela achava bom ouvir sobre Deus. Quando Paulo se aproximou e começou a falar sobre o evangelho de Jesus, ela prontamente quis saber do que se tratava. Talvez ela já tinha ouvido falar sobre o Deus Iavé e sobre os feitos tremendos que o povo de Israel vivera no passado, mas Jesus ela não conhecia.

Então, seu coração, sensível às coisas eternas, foi aberto pelo Senhor para atender às coisas que Paulo dizia. A palavra grega usada por Lucas para descrever a atitude de Lídia, traduzida como atender, tem o sentido de… Ocupar a mente em… Prestar atenção a… Ser cuidadoso sobre… Aplicar-se a… Aderir a…

Lídia gostava das cores, ela vendia tecidos coloridos, mas descobriu que em Jesus, as cores ganham vida e a vida passa a ter sentido.

Joana, esposa de Cuza, um alto funcionário de Herodes, segundo Humberto de Campos, no livro Boa Nova, psicografia de Chico Xavier, foi ardorosa discípula de Jesus, de quem recebeu sábios conselhos para lidar com seu marido, homem rico, envolvido com trocas da política e vida desregrada.

Tendo recebido de Jesus alguma graça ou cura e tendo conhecido os ensinamentos do Mestre, buscou segui-lo, sendo por ele orientada a permanecer no lar, ajudando, com seu comportamento e suas palavras, ao marido que lhe havia sido confiado naquela vida.

Ao nascer-lhe um filho, entregou-se à sua criação e educação moral, com o mesmo zelo e amor com que assistia ao marido. Seguindo Jesus à distância, foi uma das mulheres que, com suas posses, atenderam às necessidades do Mestre e de seus discípulos.

Logo após o martírio de Jesus, juntou-se a outras mulheres para irem ao sepulcro, levando especiarias e ungüentos para envolver o corpo morto do Mestre. Em lá chegando, encontraram o sepulcro vazio, constatando, conforme lhes ensinara Jesus, a sobrevivência do Espírito quando da morte do corpo.

Após sua morte, Joana dedicou-se aos labores evangélicos e teria sido martirizada no circo romano, em glorioso testemunho de suas convicções.

Teresa D’Ávila, Teresa de Jesus ou Teresa, a Grande, nasceu na região de Castela (Espanha), em Ávila, uma cidade medieval cercada por muralhas de pedras grandes e claras que se tornam douradas quando o sol está se pondo. Desde menina Teresa gostava de ler história da vida de santos. Acompanhava-lhe neste gosto seu irmão Rodrigo que tinha idade próxima da dela. Os dois admiravam em conjunto a coragem e heroísmo dos santos na luta pela conquista da glória eterna.

De Madre Teresa de Calcutá, diz-nos o padre Kolodiejchuk, co-fundador do ramo sacerdotal dos Missionários da Caridade: “Creio que a chave de sua vida está precisamente no fato de que era uma mulher totalmente apaixonada por Jesus. Encontramos escritos de sua juventude nos quais confessa que Jesus foi seu primeiro amor. Falava como uma menina apaixonada.

Para ela sua entrega aos mais necessitados, aos pobres entre os pobres, era a resposta a um chamado. Inclusive nos momentos de obscuridade, estava convencida de que se tratava de um autêntico chamado de Jesus. Estava convencido dessa frase que repetia com freqüência: “God’s work” (obra de Deus). Sentia-se como um lápis de Deus, seu instrumento.”

Os anos se passaram e tudo continua muito parecido com o que acontecia naquela época: as dificuldades que as mulheres atuais enfrentam, apesar da distância de quase 2000 anos, não são tão diferentes assim: preconceito, violência, menosprezo no lar e no trabalho, falta de oportunidades iguais na sua educação, desde a infância e mesmo no trabalho, conquista recente, ainda não conseguiram equiparação aos homens.

Colaborou neste texto, Sonia Lo Prete, do CE Casa de Catarina.



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